Capítulo 03 - Revelações ou mais
Dúvidas?
Darl acorda.
Ele se vê novamente em uma cama revestida de palha dentro de uma casa de
madeira. Sua mente estava estranhamente vazia. Ele não conseguia se lembrar de
nada desta vez.
Darl então
levanta e começa a se lembrar. Ele lembra de já ter passado por uma situação
parecida, o que o fez olhar para sua perna esquerda, mas ela não estava
enfaixada e nem doía.
Logo ele
também se lembrou de todo o resto, e de tudo que fora forçado a fazer. Todas as
atrocidades que fez e sofrimento de causou. E ele se lembrou do que sentia nos
momentos.
Darl começou
a prestar atenção à sua volta: A casa era um pouco maior que a de Gundar, era
também mais velha, mais úmida - talvez tivesse chovido recentemente. A casa
tinha praticamente os mesmo móveis que a casa de Gundar - mas não tinha uma
lareira -, tinha mais janelas e tinha também alguns tapetes.
Darl olhou
pela janela ele viu outras casas em volta, mas não eram as de Nouwer, elas
estavam aparentemente abandonadas pois estavam na maioria quebradas e até
tinham musgos e fungos crescendo nas paredes - talvez ninguém tivesse morado
ali por décadas. Também tinha um rio que passava por dentro do aparente
vilarejo.
Darl anda
pela casa à procura de alguém. Logo ele vê, em outro cômodo da casa, Gundar e
um homem extremamente velho, ambos sentados. Entre eles havia uma pequena mesa
com, pelo que parecia, alguma bebida; ambos seguravam canecas de barro que
estavam usando-as para beber aquela bebida.
Ambos percebem
a presença de Darl e, em silêncio, voltam a beber. Darl ficou sem saber o que
dizer, nem mesmo sabia se devia dizer algo. Então ele ficou parado ali mesmo,
sem se dar conta do quão estranho ele deveria parecer por estar parado ali em
pé.
Gundar então
vira a cabeça para Darl e pergunta:
— Lembra-se
de algo?
Darl, por
impulso, respondeu gaguejando:
— S-Sim.
Gundar,
depois de alguns segundos, suspirou e disse:
— Eu não
costumava acreditar no que as pessoas diziam, mas vocês dois estão me fazendo
duvidar das minhas próprias crenças.
Darl não
entendeu o que Gundar quis dizer. Ele então olhou para o velho homem que estava
no lado oposto a Gundar na mesa. O homem tinha o cabelo e barba totalmente
brancos, sua barba era bem longa e era calvo. Ele tinha um leve e estranho
sorriso no rosto, como se estivesse sorrindo apenas para esconder tristeza ou
para não deixar as pessoas em volta melancólicas, "talvez ambos",
Darl pensou.
— Darl, este
é Rognir. — Diz Gundar, que continua: — Foi ele que nos encontrou essa manhã e
nos trouxe para sua casa.
— Foi meu
prazer ajudar dois jovens em tempos como este. — Diz o velho homem.
Foi um pouco
estranho para Darl ver Gundar ser chamado de jovem, já que ele tinha quase
quarenta anos, e essa era uma idade elevada para a época. Mas talvez não faça
diferença para aquele homem, que poderia ter até oitenta anos.
Gundar então
pergunta retoricamente:
— Por que
não se senta aqui e diz o que se lembra da noite passada? Acho que Rognir pode
te ajudar de alguma maneira.
Darl então,
após se sentar e ser apresentado devidamente a Rognir, contou o que acontecera
desde que fora capturado na noite passada até o momento em que ele perdera a
consciência. Suas palavras foram muito vagas, mas ele esperava que tivessem
sido o suficiente - ele não queria realmente lembrar daquilo.
— Posso não
lembrar muito do que acontece atualmente, mas me lembro bem da minha juventude
e tudo que aconteceu naquela época até algumas décadas atrás. — Disse Rognir,
o velho homem. — Está familiarizado com
a história após Khanlof, Darl?
— Não,
senhor. Nunca me contaram com detalhes essa parte dos impérios. — Darl torceu
para Gundar não se ofender após a sua resposta.
— Ah, mas é
uma pena. — Rognir pareceu até um pouco decepcionado. Mas continuou: — Eu
estava lá quando imperadores surgiram e quando caíram, eu estava lá quando o
que não era natural apareceu. Quando Khanlof morrera e Yorn, seu filho se
tornara imperador, quando o que as pessoas ao oeste chamavam de
"magia" ganhara força nas guerras. Yorn começou a usá-la em suas
lutas por território perdido ao leste, mas falhou.
Rognir pausa
para respirar e continua:
— Um pouco
antes do "Holocausto Das Três Décadas", um pouco antes de Yorn morrer
também, eu soube de algo que poucos souberam: como a magia estava sendo usada
de modo efetivo na guerra, pelo que me lembro, eles pegavam um tipo de espírito
maligno e colocavam no corpo de crianças para que elas quando crescessem fossem
soldados invencíveis. Esses soldados podiam fazer coisas inumanas e quando
estavam perto de morrer eles matavam todos em volta de modo brutal.
Darl não
entendeu tudo, mas entendeu a suposição feita por Rognir. Assustado, Darl diz:
— Está
dizendo que eu posso ser um desses soldados? Como eu poderia ser e não saber?
— As
crianças que mencionei geralmente não tinham família, o que facilitava a
"captura" delas. Após terem aquele "espírito" inserido em
seu corpo, elas eram treinadas para se tornarem soldados. Eu não sei se esse é
o seu caso, mas se você tem família e não se lembra de ter passado algum tempo
longe de casa, então esse provavelmente não é o seu caso.
Darl se
surpreendeu com as coincidências. Sem família, treinado para ser soldado. Mas
tudo aconteceu de modo diferente com ele, mas ao mesmo tempo parecia até
coincidência demais. A mente de Darl se tornou confusa. Ele já não sabia o que
pensar.
Gundar
parecia surpreso também, mas não confuso como Darl. Ele então diz, pensativo:
— Que
coincidência. Mas eu realmente não estou, ou estava, treinando Darl com essa
intenção. E, pelo que me lembro, Darl tinha uma família até um dia antes de eu
o encontrar.
Rognir
pensou um pouco e disse:
— Não sei se
isto vai melhorar as coisas, e até espero que eu esteja errado, mas... já ouvi
falar de muitas coisas causadas por magia, até memórias trocadas ou forjadas.
Talvez Darl já não tivesse uma família há muito tempo, mas se lembrasse de ter,
pois suas memórias foram trocadas.
Rognir, ao
perceber o quão assustado e confuso Darl estava, disse:
— Podem ser
só coincidências, existe uma grande chance de eu estar errado. Considere os
fatos apenas como coincidências. Afinal, se você fosse mesmo uma das crianças
que falei, você provavelmente não teria conseguido fugir ou coisa assim. E eu
nem sei se eles ainda praticam esse tipo de coisa.
Gundar e
Rognir perceberam que deveriam parar de falar sobre o assunto. Darl havia
acabado de "acordar de um pesadelo". Logo Rognir, para trocar de
assunto, diz:
— Estão com
fome? Tenho aqui dois coelhos que peguei essa manhã, espero que sejam o
bastante.
"Dois
coelhos?!", Darl pensou. "Um coelho não é o bastante para uma pessoa
por um dia!".
— Rognir. —
Gundar chamou, e continuou: — Sei um modo de lhe agradecer devidamente pela sua
hospitalidade e generosidade.
Darl e
Rognir então olham para Gundar. Darl já havia entendido o que Gundar planejava.
— Dois
coelhos não serão o bastante para nós quatro. Teremos uma refeição descente, eu
e Darl caçaremos algum animal para você agora mesmo.
Rognir para
tão surpreso quanto emocionado. O velho homem provavelmente não comera algo
além de coelhos, ratos ou frutas há muito tempo.
Gundar
perguntou a Rognir se ele tinha alguma ferramenta de caça em sua casa, Rognir
disse que sim e emprestou a Gundar e Darl um arco e uma aljava para cada um.
Enquanto
saíam do vilarejo, ou o que sobrou dele, Darl se lembrou que Gundar havia dito
"nós quatro". Então Darl faz a pergunta:
— Gundar,
você havia dito "nós quatro"? Quem mais estava lá?
— A esposa
de Rognir, Grena. Ela não vê e também não consegue andar sem ajuda, então ela
passa a maior parte do tempo deitada.
Alguns
segundos depois, Darl percebeu que havia chamado Gundar de "você" em
vez de "senhor". Foi tão espontâneo que ele nem percebeu, ele havia
passado tanto tempo com Gundar que ele era quase como um segundo pai para ele.
"Um segundo pai", Darl pensou, enquanto se lembrava de sua família
original.
Enquanto os
dois passavam pelas ruínas do vilarejo, Darl se perguntava o que havia
acontecido com o lugar. Quando eles já haviam quase saído do vilarejo, Darl viu
algo que o surpreendeu: um cemitério, um cemitério pequeno, porém com muitas
lápides próximas umas das outras. Metade das lápides pareciam recentes - não
havia crescido grama totalmente nelas.
Darl
assustado olhou para Gundar e percebeu que ele estava olhando para a mesma
direção que Darl. Darl permaneceu em silêncio, apesar de tudo. Ele também
percebeu que Gundar estava mancando, parecia que algo havia acontecido com sua
perna esquerda.
Quando ambos
já estavam do lado de fora do vilarejo, Gundar parou, respirou fundo e disse:
— Hora de
ver se o treinamento teve algum resultado.
Darl apenas
respondeu com um "hã?".
— Darl —
Gundar chamou —, estamos atrás de qualquer animal que não seja muito perigoso,
de preferência um cervo. Como devemos começar?
Depois de
pensar um pouco, Darl respondeu:
— Há um rio
que corta o vilarejo, então devem haver animais por perto. E já que existem muitas
pessoas na área, não será difícil achar algum cervo.
Darl olhou
para o chão e viu que haviam fezes de animais e algumas pegadas que não haviam
sido cobertas por folhas caídas. Darl então disse:
— Não
podemos confiar nos rastros dos animais, já que existem tantos, animais devem
passar por aqui com frequência. Então se nos escondermos e esperarmos ou nos
esgueirar pelos arbustos e procurar por algum animal.
Darl olhou
para Gundar esperando alguma aprovação, mas Gundar parecia ainda esperar que
Darl falasse mais alguma coisa. Foi então que Darl se lembrou de algo.
— Seria
muito perigoso nos esgueirarmos já que não sabemos qual é a chance de sermos
surpreendidos por um lobo ou javali, já que o chão está coberto de folhas não
podemos saber quantas pegadas de lobos ou qualquer animal perigoso tem em
relação ao número de pegadas de cervos ou qualquer animal do tipo. — Darl,
depois de poucos segundos, continuou: — Devemos então nos esconder em um lugar
fixo e alto, como uma árvore.
Darl esperou
novamente por alguma aprovação. Gundar ainda ficou calado, mas balançou a
cabeça positivamente, no final. Mas então disse:
— Ótimo. Mas
você se esqueceu da probabilidade de algum inimigo nos encontrar. Mesmo não
estando em Nouwer, não se deve baixar a guarda em relação à guerra.
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