...
Gundar
esperou até o dia seguinte para ter certeza que Darl estaria psicologicamente
capaz de começar o treinamento. Darl não havia dormido bem, ele nem tinha
certeza se havia realmente dormido. Ambos estavam do lado de fora da casa de
Gundar, podia-se ver algumas casas em volta, um castelo, algumas árvores entre
as casas e uma muralha de madeira cercando o lugar.
Gundar
tinha consigo duas espadas de madeira, que provavelmente seriam usadas no
treinamento. Antes de começarem, Gundar perguntou:
—
Darl, seu pai lhe ensinou pelo menos o básico de como usar uma espada?
Darl,
ainda lento, responde:
—
Não, senhor.
—
E um machado? É uma arma muito usada no norte.
—
Também não, senhor... Tudo que sei fazer com um machado é cortar lenha.
—
Certo... — Gundar pensou um pouco, provavelmente em como começar.— Mostrarei o
básico de atacar e se defender.
E
assim Gundar fez. Mesmo não se sentindo nada confortável ou com disposição para
treinar, Darl lutou bem. Gundar considerou que era uma "herança do
Norte". O dia foi simples: treinar, comer, dormir. Apesar de tudo, Darl
conseguiu dormir por causa do cansaço. Ele tinha certeza que ia ter pesadelos,
as não aconteceu.
...
No
terceiro dia a comida acabou. Gundar teria que caçar, ele aproveitou a chance
para ensinar Darl alguma outra coisa.
Eles
atravessaram as muralhas e entraram na floresta. Era dia, mas as árvores eram
be maltas e cobriam a maior parte do céu. Gundar avisou a Darl para avisá-lo
caso visse alguma outra pessoa na floresta, já que estavam em guerra, poderia
ser um inimigo. Andar numa floresta novamente lembrou Darl dos acontecimentos
de quatro dias atrás, o que não melhorou em nada seu humor.
—
Gundar... — Chamou Darl.
—
O que foi? — Perguntou Gundar.
—
Se o senhor tinha pouca comida e está em guerra, e poderia cair em alguma
emboscada na floresta, entre muitos outros problemas... — Darl hesitou um pouco
— Por que me salvou? Eu só lhe traria mais problemas. E provavelmente não
viverei o suficiente para virar soldado.
Gundar
não pareceu nada surpreso com a pergunta, pelo contrário.
—
Você demorou para me perguntar isso. Vamos dizer que eu apenas achei uma boa
ideia. Em tempos como esse as pessoas tendem a não pensar muito. Não se
preocupe com isso.
Eles
andaram um pouco mais em silêncio. Então Gundar disse:
—
Aqui vai a primeira dica: Se você tiver problemas em encontrar algum animal,
você pode tentar atrair algum lobo ou qualquer predador com carne, parece que
os desgraçados podem perceber algo morto de muito longe. Isso também funciona
com corvos se a carne estiver estragada.
—
Mas nós não temos nenhuma carne, temos? — Perguntou Darl.
—
Não temos. Mas há outro jeito de conseguir que caça venha até você. E é um modo
até menos perigoso. — Gundar parou de falar por alguns instantes e pareceu se
concentrar. — Pode ouvir o rio?
Depois de alguns segundos, Darl também ouve, e
então diz que sim.
—
Uma coisa que todos precisam, inclusive os animais, é água. — Disse Gundar. —
Onde há água, de preferência muita água, é o melhor lugar para encontrar algum
animal.
Eles
andaram em direção ao som e logo encontraram o rio. Mas não havia nenhum animal
lá, e caso houvesse, provavelmente fugiu ao percebê-los se aproximando. Isso
também não pareceu surpreende Gundar, que logo diz:
—
Agora que estamos aqui, vamos esperar que algum animal venha beber água, de
preferência que não seja um lobo ou javali.
—
Vamos nos esconder, certo? Qualquer animal nos veria aqui.
—
É claro, mas não pelo chão, ou poderemos ser a caça em vez do caçador.
—
Então onde?
—
Em uma árvore. Cervos não esperam que lobos venham de cima de árvores, então
vamos surpreender o primeiro que parar por aqui.
Gundar
e Darl esperaram por volta de meia hora em uma árvore. Gundar estava sentado no
galho mais próximo ao rio e Darl estava do outro lado, procurando por algum
predador que poderia surpreendê-los também, ou qualquer animal que viesse por
onde Gundar não pudesse ver.
Para
a sorte deles, um cervo finalmente parou para beber água. Ele estava do outro
lado do rio, mas não seria problema. Gundar preparou uma flecha e a preparou
para atirar, esperou o cervo abaixar a cabeça para beber água, mirou na cabeça
para ter certeza que o cervo não poderia fugir, e então atirou.
Ele
pode até ter errado a cabeça, mas acertou bem no meio do pescoço do cervo. A
flecha não atravessou, o que só provou que Gundar atingira algum osso. O cervo
caiu, morto obviamente. Sendo experiente no que faz, Gundar perguntou a Darl se
havia algum lobo por perto, assim eles poderiam descer em segurança.
O
problema foi que Darl, na verdade, estava olhando para o outro lado, e
assistindo quando Gundar atirou a flecha. Quando Darl olhou novamente para onde
devia, ele só pôde ver dois lobos correndo em direção ao cervo morto. Darl não
teve tempo de falar, pois os lobos já estavam do outro lado da árvore
atravessando o rio. Gundar os viu.
—
Ah, droga! — Resmunga Gundar, preparando outra flecha.
Ele
atira e atinge um dos lobos na perna dianteira esquerda. Ambos entram em alerta
e começam a procurar em volta por alguma ameaça. Logo outra flecha voa e acerta
o lobo que Gundar atingira, desta vez no torso. O coração deve ter sido
atingido, já que o lobo cai morto.
O
outro lobo vendo o companheiro caindo bem ao seu lado, andou até ele e
cheirou-o. Em vez de fugir, ele começa a rosnar para a direção de onde a flecha
veio, ele pareceu ver Gundar na árvore, que não teve tempo de ter certeza se
sua suspeita era a realidade.
Gundar
atira outra flecha, mas erra, acertando o chão a alguns centímetros lobo, que
dispara em sua direção. Quando o lobo ainda atravessava o rio, Gundar dispara
outra flecha, mas erra novamente. O lobo já estava quase do outro lado do rio.
Gundar, para ganhar tempo, joga o arco em direção ao lobo, atingindo-o, mas
apenas atrasando-o.
Gundar
retira uma adaga do cinto, mas o lobo já embaixo dele. A árvore não era muito
alto, então o lobo pula e agarra o pé direito de Gundar com uma mordida,
derrubando-o. Gundar acaba largando a adaga. Ele levanta-se e sem ter tempo de
pensar, o lobo salta em sua direção. Gundar agora deve agir por puro instinto.
Ele
tenta se defender com o braço esquerdo, o logo agarra esse braço com os dentes.
Gundar, apesar da dor, dá um soco com o braço livre no rosto do lobo, que
solta-o. O lobo anda em volta de Gundar, que procura pela adaga no chão e ao
mesmo tempo presta atenção no lobo.
No
momento em que Gundar se move em direção à adaga, o lobo salta novamente. Mas
Gundar consegue pegar a adaga e num movimento rápido, a enfia na boca do lobo
durante o pulo. Gundar não esperou que o lobo morresse e logo arrancou a adaga
e a enfia na garganta do lobo.
Darl
desce da árvore e olha para o lobo, tecnicamente morto, e para Gundar. Gundar
tinha o braço esquerdo coberto de sangue e a adaga ficou no pescoço do lobo.
Ele olha furioso para Darl e diz:
—
Para onde diabos estava olhando? Se eu não tivesse sido surpreendido poderia
pensar em um jeito melhor de matá-los.
—
Eu, err... — Darl não sabia o que responder, nem tinha como.
—
Seu erro quase custou nossas vidas! — Gundar grita, — Se para garantir sua
sobrevivência você tenha que se manter atento por uma semana, FAÇA! Mas você
não pode fazer isso nem por uma hora! UMA MÍSERA HORA!!!
Darl
não disse nada, e fez bem.
Gundar
enfaixa o braço esquerdo, recolhe a adaga e as flechas. Amarra o cervo e ambos
os lobos e faz Darl carregá-los de volta a Nouwer.
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