...
Darl
ainda está de olhos fechados, ele sente algo espetar seus braços e pescoço. Ele
instintivamente abre os olhos, e vê o teto de madeira e palha de uma casa. Sua
visão está sem foco, tudo que ele vê está triplicado. Ele levanta-se
parcialmente e se senta, percebe então que está em uma cama de palha. Percebe
que todo seu corpo dói, ele olha em volta e vê tudo que pode haver em um casa
normal: uma lareira, um armário, uma mesa cercada de cadeiras, janelas...
Ele
tenta ficar de pé, mas uma dor tremenda surge em sua perna esquerda e ele cai
derrubando uma cadeira. Ele olha para sua perna esquerda e vê que sua canela
está enfaixada, então ele se lembra do dia anterior, dos lobos, da mordida...
do sangue.
Darl
ouve o ranger de uma porta. À sua frente ele vê a porta se abrir, ele ainda não
vê bem, mas ele pode ver a silhueta de um homem do tamanho da porta segurando
na mão direita um... machado? Darl tenta se levantar rapidamente mas acaba
tropeçando e caindo para trás. O homem, vendo a figura assustada que era o
garoto, leva a sua mão livre à cabeça e a coça.
—
Mal acorda e já causa problemas. — Diz o homem.
O
homem deixa seu machado apoiado na lareira e virou sua mão para Darl, que ainda
tentava focar sua visão e ver o rosto do homem. Vendo que o garoto ainda
parecia assustado e não segurava sua mão, o homem diz:
—
Não precisa ter medo, garoto. Vamos, segure minha mão.
Após
conseguir raciocinar, Darl segura a mão do homem, que o ajuda a se levantar.
Ele também ajuda Darl a alcançar de volta a cama e diz para Darl sentar nela,
Darl faz como o homem mandou. Então o homem pega uma cadeira e se senta de
frente para Darl.
Darl
finalmente conseguiu focar sua visão e enxergou o rosto do homem: Mesmo não
sendo velho, ele tinha as expressões de alguém que já havia vivido muito,
alguém que já passou por tudo que a guerra poderia proporcionar, alguém que
passou por muitos sofrimentos mas ainda continua de pé. Tanto seu cabelo e
barba não haviam sido aparados a um bom tempo, em tempos de guerra as pessoas
não se preocupavam muito com isso. Seus olhos também eram castanhos e tinham
olheiras bem evidentes.
O
homem olha atentamente para Darl, como se suspeitasse que o garoto fosse tentar
fazer algo, talvez a guerra nos deixe paranóicos. Após olhar para Darl por
alguns segundos em silêncio, o homem suspira e parece um tanto confortável, mas
ainda atento.
—
Então, foi você quem matou aqueles lobos, garoto? — O homem pergunta. — Você
tinha as mãos cobertas de sangue e tenho a impressão que você matou um deles
com as próprias mãos. Não se vê crianças assim todo dia, na verdade nunca ouvi
falar de uma criança que pudesse fazer algo assim. Foi você?
—
S-Sim, senhor. Foi... instintivo, eu acho. — Responde Darl.
—
Difícil de acreditar... — Ele analisou mais Darl: O garoto tinha cabelos ruivos
e olhos azuis-escuro, tinha características de uma criança que viveu no campo,
mas não parecia realmente forte.— Você parece mais inofensivo que um rato. Veio
do Norte?
—
Não sei, senhor. Onde estamos?
—
Nouwer, um feudo que pertenceu ao antigo império de Khanlof.
Darl
pareceu reconhecer o nome... "Khanlof" era um nome familiar. Mas ele
ainda não sabia onde ficava Nouwer, ele nunca vira um mapa em sua vida. Então
respondeu:
—
Não sei dizer. Devo ter vindo do norte, mesmo. Moro em uma pequena casa em
algum lugar nos bosques. Eu não vi para que direção corri.
—
Estava correndo dos lobos?
Darl
então se lembra de estar correndo antes de ser perseguido pelos lobos. Mas o
motivo... não podia ser real.
—
S-Sim, senhor... eu estava correndo dos... lobos.
O
homem apenas achou estranha a resposta de Darl.
—
Qual o seu nome, garoto? — Perguntou.
—
É Darl, senhor.
—
Darl...
—
Darldollum, senhor. Mas "Darl" é mais fácil de pronunciar.
—
Certo, Darl. Você tem família?
Essa
era uma simples pergunta, mas também era complicada para ele responder. Ele se
lembrou ainda mais, das sensações, dos gritos, de tudo. Darl, não conseguiu
dizer nada. Ele abaixou a cabeça e a apoiou nas mãos.
—
Entendi. — Disse então o homem. — Você é como a maioria de nós, caso isso possa
te reconfortar.
Ele
pôs mão direita sobre o ombro esquerdo de Darl e disse:
—
Meu nome é Gundar. Apesar do que aconteceu com sua família, Darl, considere-se
com sorte. Fui eu quem te encontrou na floresta hoje de manhã. E agora sou
responsável por você.
Darl
levantou a cabeça e olhou para Gundar, que tinha pena e compreensão no olhar.
Gundar então levanta da cadeira, anda um pouco em círculos e, de costas para
Darl e olhando para o teto, finalmente diz:
—
Esse será um grande recomeço para você, Darl. O destino pode ter te poupado,
mas agora você está sob a responsabilidade de um soldado. Não precisamos de
mais pessoas nas fazendas e duvido que alguém queira criá-lo lá, então você
deve, por lei, servir o feudo de algum modo. E esse será, caso estejamos vivos
até lá, como um soldado como eu.
Gundar
vira-se para Darl e continua:
—
Então, Darl, consegue se adaptar à essa nova vida ou prefere se virar sozinho
em algum lugar fora desse feudo?
Darl
respira fundo, ergue a cabeça e diz:
—
Por ser a melhor escolha, e talvez a única em que eu sobreviveria, escolho me
tornar um soldado.
Gundor
após aprovar a decisão de Darl com a cabeça, começou a pensar o quão trabalhoso
seria preparar uma criança para se tornar um soldado.
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