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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Segunda parte do Capítulo 01

Essa é a segunda parte do primeiro capítulo da história que estou escrevendo:





...

                Darl ainda está de olhos fechados, ele sente algo espetar seus braços e pescoço. Ele instintivamente abre os olhos, e vê o teto de madeira e palha de uma casa. Sua visão está sem foco, tudo que ele vê está triplicado. Ele levanta-se parcialmente e se senta, percebe então que está em uma cama de palha. Percebe que todo seu corpo dói, ele olha em volta e vê tudo que pode haver em um casa normal: uma lareira, um armário, uma mesa cercada de cadeiras, janelas...
                Ele tenta ficar de pé, mas uma dor tremenda surge em sua perna esquerda e ele cai derrubando uma cadeira. Ele olha para sua perna esquerda e vê que sua canela está enfaixada, então ele se lembra do dia anterior, dos lobos, da mordida... do sangue.
                Darl ouve o ranger de uma porta. À sua frente ele vê a porta se abrir, ele ainda não vê bem, mas ele pode ver a silhueta de um homem do tamanho da porta segurando na mão direita um... machado? Darl tenta se levantar rapidamente mas acaba tropeçando e caindo para trás. O homem, vendo a figura assustada que era o garoto, leva a sua mão livre à cabeça e a coça.
                — Mal acorda e já causa problemas. — Diz o homem.
                O homem deixa seu machado apoiado na lareira e virou sua mão para Darl, que ainda tentava focar sua visão e ver o rosto do homem. Vendo que o garoto ainda parecia assustado e não segurava sua mão, o homem diz:
                — Não precisa ter medo, garoto. Vamos, segure minha mão.
                Após conseguir raciocinar, Darl segura a mão do homem, que o ajuda a se levantar. Ele também ajuda Darl a alcançar de volta a cama e diz para Darl sentar nela, Darl faz como o homem mandou. Então o homem pega uma cadeira e se senta de frente para Darl.
                Darl finalmente conseguiu focar sua visão e enxergou o rosto do homem: Mesmo não sendo velho, ele tinha as expressões de alguém que já havia vivido muito, alguém que já passou por tudo que a guerra poderia proporcionar, alguém que passou por muitos sofrimentos mas ainda continua de pé. Tanto seu cabelo e barba não haviam sido aparados a um bom tempo, em tempos de guerra as pessoas não se preocupavam muito com isso. Seus olhos também eram castanhos e tinham olheiras bem evidentes.
                O homem olha atentamente para Darl, como se suspeitasse que o garoto fosse tentar fazer algo, talvez a guerra nos deixe paranóicos. Após olhar para Darl por alguns segundos em silêncio, o homem suspira e parece um tanto confortável, mas ainda atento.
                — Então, foi você quem matou aqueles lobos, garoto? — O homem pergunta. — Você tinha as mãos cobertas de sangue e tenho a impressão que você matou um deles com as próprias mãos. Não se vê crianças assim todo dia, na verdade nunca ouvi falar de uma criança que pudesse fazer algo assim. Foi você?
                — S-Sim, senhor. Foi... instintivo, eu acho. — Responde Darl.
                — Difícil de acreditar... — Ele analisou mais Darl: O garoto tinha cabelos ruivos e olhos azuis-escuro, tinha características de uma criança que viveu no campo, mas não parecia realmente forte.— Você parece mais inofensivo que um rato. Veio do Norte?
                — Não sei, senhor. Onde estamos?
                — Nouwer, um feudo que pertenceu ao antigo império de Khanlof.
                Darl pareceu reconhecer o nome... "Khanlof" era um nome familiar. Mas ele ainda não sabia onde ficava Nouwer, ele nunca vira um mapa em sua vida. Então respondeu:
                — Não sei dizer. Devo ter vindo do norte, mesmo. Moro em uma pequena casa em algum lugar nos bosques. Eu não vi para que direção corri.
                — Estava correndo dos lobos?
                Darl então se lembra de estar correndo antes de ser perseguido pelos lobos. Mas o motivo... não podia ser real.
                — S-Sim, senhor... eu estava correndo dos... lobos.
                O homem apenas achou estranha a resposta de Darl.
                — Qual o seu nome, garoto? — Perguntou.
                — É Darl, senhor.
                — Darl...
                — Darldollum, senhor. Mas "Darl" é mais fácil de pronunciar.
                — Certo, Darl. Você tem família?
                Essa era uma simples pergunta, mas também era complicada para ele responder. Ele se lembrou ainda mais, das sensações, dos gritos, de tudo. Darl, não conseguiu dizer nada. Ele abaixou a cabeça e a apoiou nas mãos.
                — Entendi. — Disse então o homem. — Você é como a maioria de nós, caso isso possa te reconfortar.
                Ele pôs mão direita sobre o ombro esquerdo de Darl e disse:
                — Meu nome é Gundar. Apesar do que aconteceu com sua família, Darl, considere-se com sorte. Fui eu quem te encontrou na floresta hoje de manhã. E agora sou responsável por você.
                Darl levantou a cabeça e olhou para Gundar, que tinha pena e compreensão no olhar. Gundar então levanta da cadeira, anda um pouco em círculos e, de costas para Darl e olhando para o teto, finalmente diz:
                — Esse será um grande recomeço para você, Darl. O destino pode ter te poupado, mas agora você está sob a responsabilidade de um soldado. Não precisamos de mais pessoas nas fazendas e duvido que alguém queira criá-lo lá, então você deve, por lei, servir o feudo de algum modo. E esse será, caso estejamos vivos até lá, como um soldado como eu.
                Gundar vira-se para Darl e continua:
                — Então, Darl, consegue se adaptar à essa nova vida ou prefere se virar sozinho em algum lugar fora desse feudo?
                Darl respira fundo, ergue a cabeça e diz:
                — Por ser a melhor escolha, e talvez a única em que eu sobreviveria, escolho me tornar um soldado.
                Gundor após aprovar a decisão de Darl com a cabeça, começou a pensar o quão trabalhoso seria preparar uma criança para se tornar um soldado.

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