Prólogo
Guerra... Verdades, deuses, rivalidade entre feudos, simples discussões... Hoje no Oeste tudo
acaba em simples guerra. As pessoas não conhecem mais a verdadeira paz,
elas podem apenas aceitar seus destinos miseráveis. A única escolha que elas
têm é entre ser morto pelos seus "inimigos de guerra", cometer
suicídio ou, caso viva o bastante, morrer de fome ou de alguma doença.
Reflexões já não ocorrem com
frequência, nem mesmo por parte daqueles
que causam as guerras. Não se pode questionar qualquer "autoridade"
ou "santidade", pois você é executado ou queimado enquanto é
condenado a parar em algum inferno ou coisa do tipo, dependendo de onde você é.
Mas no final, é sempre o mesmo.
Uma vez as pessoas conheceram a
palavra "vida" melhor que "morte", "possibilidade"
melhor que "iminência", "religião" melhor que "pura
verdade"... e pelo menos chegaram a ouvir a palavra "Magia", a
palavra sem antônimos, a palavra esquecida.
Sempre existiram guerras, vidas e mortes
miseráveis, todas essas coisas. Mas existia raciocínio, existiam aqueles que
podiam unir e guiar corretamente, aqueles que hoje não existem. E agora, você
conhecerá o verdadeiro passado, e com ele, somente com ele e sua própria interpretação,
você entenderá o presente.
Guerras sempre existiram, sejam
elas entre famílias ou pequenos povoados. Os humanos tendem a entrar em
conflitos desde que eles, de alguma maneira, obtenham lucro. Isso é um fato.
Com ou sem ouro, o lucro ainda existe e é mais importante que tudo, seja para
enriquecer ou se alimentar.
Obviamente, as coisas não
seriam sempre as mesmas. Sempre surgiam aqueles que eram capazes de unificar, e
isso tanto ocorreu quanto se desfez várias e várias vezes na humanidade.
Surgiram grandes impérios, e todos eles ruíram ou para que outros surgissem, o
ciclo é perfeito e inevitável.
Depois de muitos séculos,
quando as engenhosas armas de cerco estavam sendo mais usadas do que nunca, ocorre
uma grande "descoberta": A descoberta, ou se preferir, a redescoberta,
da conhecida no Oeste como "Magia". Sim, a "Magia" já
existiu entre os humanos antes, de diversas formas e com diversos usos. Era
impossível de explicar, era algo divino, algo sobrenatural, algo milagroso,
algo estranho, algo que não era encarado bem pelas pessoas.
A "Magia" foi
redescoberta por Gundord, o homem que conquistou dezenas de feudos usando
principalmente sua sabedoria, sendo capaz de causar incríveis reviravoltas em
suas poucas guerras. Ele conquistou a maioria dos feudos convencendo os seus
donos das vantagens da unificação. Seu grande império se estende da parte sul
do Mar do Norte, ocupa a maior parte norte do Mar do Oeste e vai até o Grande
Lago Salgado, ao sul. Esse império não se estendeu mais porque, a leste, havia
outro grande conquistador, com um outro grande império.
Esse outro império se estendia
por quase toda fronteira terrestre do império de Gundord exceto pela região das
margens do Mar do Norte e se estende um pouco mais por terra ao leste do Grande
Lago Salgado. Esse império pertencia a Khanlof, que também conquistou muitos
feudos até formar seu império, porém, diferente de Gundord, este apelou aos
conflitos. Primeiro reuniu todo o ouro possível, depois contratou tantos
mercenários do Norte que formou um exército que, em apenas um mês conquistou
onze feudos. Após isso ele conquistou os outros feudos usando inexplicáveis
táticas de guerra que ninguém jamais pôde explicar nem impedir sua eficiência
uma vez sequer. E também conquistou pelo comércio, mas na verdade, seus aliados
comerciais se uniram a ele por temerem-no.
Ao descobrir sobre a descoberta
de Gundord, Khanlof logo se empenhou completamente em conseguir essa misteriosa
"Magia" para ele. Ele já ouvira sobre Magia no Norte, mas as pessoas
não levaram isso à sério, consideravam superstição ou apenas ignoravam, ninguém
queria falar sobre qualquer coisa mística envolvendo o Norte. Também ouvira
sobre Magia do Sul, mas ninguém de seu império viajou até aquelas terras,
aqueles que tentavam ir diziam que era quente como o inferno e não se tinha nada
além de areia e alguns até disseram ver água no horizonte mais ela sempre sumia
ao chegar perto; logo, o Sul passou a ser considerado uma terra amaldiçoada.
Khanlof sabia que Gundord
queria manter essa Magia longe de todos, mesmo que fosse por um bom motivo. Mas
ele não podia simplesmente deixar que seu vizinho guardasse algo tão valioso,
ele queria essa Magia a todo custo, como se ela estivesse chamando-o,
implorando para que Khanlof a libertasse.
Não demorou nem uma semana e
Khanlof, mesmo sabendo a resposta, fez sua exigência, era totalmente
inaceitável, mas ele apenas queria, por honra pessoal, avisar a Gundord sobre o
que estava por vir.
Khanlof, sendo um gênio quando
o assunto é guerra, já tinha sua estratégia preparada. Ele sabia a fraqueza de
Gundord e as fraquezas de seu império: Gundord era velho e logo deveria passar
o trono para algum de seus filhos; além de seus filhos, existiam poucas pessoas
de confiança em sua corte, isso porque Gundord, para evitar guerras, mantivera
sua promessa aos donos dos antigos feudos de deixá-los como membros importantes
de sua corte.
Após Gundord recusar sua
exigência, Khanlof contrata mercenários do Leste, sequestra os filhos de
Gundord e os mantêm como reféns, exigindo novamente a misteriosa Magia ou ele mataria
os filhos de Gundord e começaria uma guerra, essa guerra seria catastrófica
para ambos impérios mas Khanlof tinha certeza que venceria.
Gundord, sabendo que Khanlof
não sabia o que era exatamente essa Magia, o deu um livro, um livro que até hoje
não se sabe o que havia escrito, na esperança de que Khanlof pensasse que neste
livro encontraria o que queria. A troca, por exigência de Gundord, foi feita ao
mesmo tempo para ambos. Khanlof também fez sua exigência: exigiu que Gundord
estivesse no local da troca sozinho e pessoalmente. Logo após receber o livro,
Khanlof fez o que Gundord achou que fosse impossível para um homem que, apesar
de tudo, guardava forte honra: Ele ordenou que os filhos de Gundord fossem
assassinados ali mesmo.
Gundord não teve muito tempo
para agir, ele conseguiu apenas ver seus filhos sendo apunhalados pelas costas
em menos de dois segundos. Logo ali
estava ele, um velho homem desarmado presenciando os filhos desabando no chão.
Gundord olhou para khanlof e viu que o homem que antes guardava honra, tinha um
sorriso sinistro no rosto, sorriso que parecia sentir prazer em ver as
atrocidades que cometeu.
Gundord, por sua vez, também
não reagiu como khanlof esperou. Ele tinha em seu rosto uma expressão tanto de
profunda tristeza por ver seus filhos sendo assassinados quanto de
arrependimento pelo que estava prestes a fazer.
Khanlof, já perdendo seu
sorriso, disse: "E então Gundord, quer me enganar novamente e morrer junto
ao seu império e todas as pessoas que você poderia querer proteger, ou prefere
me entregar seja lá o que for essa 'Magia' e evitar uma guerra?"
Gundord, por mais que soubesse
o que seria o certo a se fazer, agiu conforme suas emoções. Então, o velho
homem, com os olhos cheios de lágrimas, sabendo que não poderia nem dar a seus
filhos um enterro digno nem impedir uma guerra, olhou para os corpos de seus
filhos e disse: "Perdoem-me, meus filhos. Mas eu sei o que vocês iriam
querer que eu fizesse nessas circunstâncias, e eu farei...", olhou para
Khanlof e continuou: "Khanlof, a Magia é um poder que está além de nossa
compreensão, você não seria capaz de controlá-la, muito menos agora que se
corrompeu. Mas eu não tenho escolha, de um jeito ou de outro ele a terá. A melhor escolha seria
impedir uma guerra, mas nem mesmo o mais sábio dos homens seria capaz de
satisfazer a vontade do monstro que assassinou seus filhos, nem dá-lo um poder que ele não poderia
controlar."
Khanlof, se sentindo insultado
mas sem perder o ar de controle diz: "E o que você pode fazer agora velho
homem? Você morrerá agora com seu império se recusar minha 'oferta' mas poderá
evitar a morte de milhares, talvez milhões se aceitar. Por que não me entrega
essa 'Magia'?"
Gundord então diz: "Porque
eu vi o futuro, Khanlof. Or finem nar exert, onas on perf
recre ciclus. Mer du tragin-o ot lar homunos."
Khanlof não teve chance de
perguntar o que aquilo significava. O chão começou tremer, todo o lugar começou
a tremer. A contrução onde eles estavam começou a desabar e a saída estava a
vinte metros dali, num ato de instinto Khanlof, enquanto corria, lançou com
braçadas seus mercenários que não estavam compreendendo o que estava
acontecendo, Khanlof também não, mas ele não ficaria ali para saber. Mas, por
azar, a saída logo despencou também e ele ficou preso ali com seus mercenários
e Gundord que gritava:"Or darkos nar
devin cam, or darkos nar devin cam!"
Os mercenários de Khanlof
estavam procurando um jeito de escapar, mas um por um foram esmagados por pedras.
Logo sobrou Khanlof preso com Gundord naquele lugar em colapso. Mesmo sabendo
que não teria escapatória, Khanlof puxou sua espada e disparou em direção a
Gundord com uma pequena esperança de que se o matasse o lugar pararia de
desabar.
Quando sua espada foi ao
encontro de Gundord ela simplesmente se quebrou. Khanlof desesperado tentou
atacar Gundord com os punhos, mas ele apenas fora lançado para longe por alguma
força que não podia ver, muito menos compreender.
O desespero já tomava conta de
Khandof que sabia ser incapaz de fugir. Apenas em seus últimos segundos de vida
ele entendeu o que Gundord estava fazendo: Aquilo
era Magia! Gundord estava tentando matá-lo com magia, e estava conseguindo. Até
que o velho imperador desaba no chão exausto.
Khanlof levantou-se do chão,
atônito, andou lentamente até Gundord que se encontrava no chão e, novamente
com seu sorriso macabro, porém desta vez misturado com espanto começa a
gargalhar, mais e mais alto até que olhou para cima e pôde ver apenas a enorme
pedra que caía em sua direção.
Gundord também morreu, logo,
com a morte de ambos imperadores, o caos surgiu entre os imérios. No império de
Gundord não havia herdeiro vivo, logo todos que estavam em postos importantes
começaram a disputar entre si e separar o império novamente em feudos que se
mantém constantemente em guerra. Porém, Khanlof tinha filhos, o mais velho
deles se chamava Yorn, que logo herdou o trono do pai. Mas, ele tinha apenas
treze anos e não era capaz de governar como seu pai; mesmo assim ele tentou, e
até conseguiu, com o custo de perder grande parte de seu território que foi
tomado por oportunistas.
Yorn ainda teve dois filhos
homens: Knor, o mais velho e herdeiro do trono e Jore, o caçula. Knor era um
imperador nato, fora educado para governar melhor até que seu pai. Mas Jore
queria ser imperador a qualquer custo, nem que tivesse que matar seu irmão para
isso.
Jore planejou um modo de herdar
o trono de seu pai a muito tempo, ele precisava apenas da paciência de uma
serpente para o momento certo de dar o bote. Ele esperou até que tivesse
dezessete anos, faltando apenas alguns dias para completar dezoito, nesse mesmo
dia, Yorn, seu pai, tivera sua comida misteriosamente envenenada e,
eventualmente Knor se tornou imperador. Knor, dois dias depois fora
assassinado, sendo atingido por uma flecha na cabeça. Logo depois, sem precisar
de muita burocracia, Jore, por ser o último herdeiro vivo e ter quase dezoito
anos, se tornou imperador. Seria muito suspeito se Jore não fosse assassinado
também, então, quando ninguém além do próprio Jore via, um homem encapuzado
segurando uma faca se aproximou bruscamente de Jore que gritou por ajuda de
seus guardas que logo prenderam o suposto assassino do pai e do irmão de Jore.
O "assassino" foi imediatamente executado em público e a paz voltou
ao império, ou não.
Jore não tinha idéia de como
governar, muito menos queria saber disso. Ele queria apenas aproveitar seu
"poder supremo" de modos que por motivos morais não serão citados,
apenas deixados para a imaginação do leitor.
Jore também tinha uma irmã, Leaz,
que sabia da verdade por trás do assassinato do pai e irmão mais velho. Não
demorou muito também para ela conspirar contra Jore e tentar fazer algo útil
para o império, coisa que não aconteceu uma vez sequer enquanto Jore esteve no
poder. Ela começou tentando fazer que o povo se revoltasse e fizesse uma
revolução. Jore, que não teria idéia do que fazer numa situação como
essa, Leaz daria um jeito nele, nem que fosse matando-o.
Porém, Jore tinha o dom de
suspeitar de tudo e todos, e logo mandou espiões vigiarem o que sua irmã e
todos os ocupantes de cargos importantes faziam. Não demorou muito para a
conspiração de Leaz ser descoberta, mas o povo já estava pronto para fazer a revolução.
Jore, para mostrar seu poder absoluto, executa sua irmã em público, no mesmo
momento a multidão se revolta contra ele e o assassina em público também.
Agora, sem herdeiros ao trono e
um povo com sede de revolução, o caos recomeça. Todos agora querem o trono,
todos, sejam o povo, os nobres ou a igreja, todos querem poder, e os únicos
modos conhecidos de se fazer isso é conseguir apoio e fazer guerra, unindo ou
não os métodos.
E assim começa o que se vive
hoje onde ficavam os impérios de Gundord e Khanlof. Existem apenas breves
momentos de paz, mas todos estão sempre prontos para começar outra matança.
Muitos conseguiram se organizar e lucrar com essas guerras, principalmente na
fronteira com o Norte e pelas redondezas do Mar do Norte. Até que, em algum
ponto, a magia foi novamente redescoberta, mas dessa vez, ela será usada de
diversas maneiras, mas todas na guerra.
E assim acaba o prólogo. Trágico, não? Lembre-se que não será sempre assim. Histórias sempre trágicas tendem a deixar o leitor insensível, e um leitor insensível nunca é bom para um final não trágico.
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